Entrevista com Bela Gil

A apresentadora e ativista por um alimentação saudável Bela Gil, em sua última passagem pela ELAA nos concedeu uma entrevista. Conversamos sobre agroecologia , alimentação saudável e a importante de defender um outro modelo de produção.  Como ela disse: “comer é um ato político e cozinhar é um ato revolucionário”.

Confira.

ELAA: O que representa a agroecologia?

Bela Gil: Agrofloresta e a agroecologia elas trazem muito bem essa reflexão na terra e ao mesmo tempo falo disso no prato. Eu falo muito de comida e alimentação saudável. Agrofloresta, ela é o suprassumo, digamos assim, da agricultura mais saudável que a gente vê hoje. Porque o tratamento que um agricultor de agrofloresta dá para a terra e para a planta é o mesmo cuidado de uma pessoa que cuida da alimentação, que cozinha pensando na saúde, vai dar para a comida. Esse olhar mais sistêmico, mais holístico, mais integral de que nada tá isolado. Nenhum órgão do corpo estão isolado, nenhuma planta vive isolada. A gente precisa olhar o organismo mais como um todo.

 

ELAA: E por que é importante defender a agroecologia atualmente?

Bela Gil: Agroecologia é um modo que vai para além de um sistema de produção de comida. É um estilo de vida, uma filosofia de vida. Porque trabalha muito com as questões de classe, de gênero, ao mesmo tempo justiça social e justiça ambiental. É um jeito de olhar um mundo mais juntos. Pra mim é um porta de entrada para acabar com a fome no mundo. Porque quando a gente pensa em uma produção agroecologia, a gente pensa em uma comida limpa, sem veneno que é bom para o meio ambiente. A gente pensa em uma econômica solidária, né! Na agroecologia, uma das grandes questões é que a gente precisa de uma mão de obra, a gente precisa de muito manejo, então a gente gera muito mais empregos no campo. A gente consegue trazer mais as pessoas da cidade para o campo. Então, tem uma justiça social muito mais forte nesse sentido do que uma grande acumulação de terra por pouco, poucas pessoa muito ricas, muito poderosas… Quando a gente pensa em agroecologia, tudo está muito mais igualmente dividido, principalmente a terra. Então eu acredito na força da agroecologia, como um sistema de transição, para a gente viver em um mundo onde se produz comida boa pra todo o mundo.

 

ELAA: E como a comida se encaixa nesse processo?

Bela Gil: Eu acredito muito na comida com uma ferramenta de transformação, não só nutricional e física do nosso corpo, mas também social, cultura, ambiental e política. Eu sempre falo que comer é um ato político e cozinhar é um ato revolucionário. Porque, a gente se deixa levar muito pelo que a indústria dita pra gente. O que colocar na nossa mesa de jantar e a gente acaba pagando com a nossa própria saúde. Então, cozinhar é um ato revolucionário, mas comer como um ato político, porque eu acho que a gente pode usar esse ato para melhorar o mundo a nossa volta.

Quando a gente escolhe consumir um alimento que vem de uma agrofloresta, a gente não tá só se alimentando de nutrientes maravilhosos para o nosso corpo, mas ao mesmo tempo a gente está plantando árvores, melhorando o nutrientes do solo, fortificando o solo, a gente está regenerando a terra, a gente está dando renda e perspectiva para esse agricultor continuar nesse estilo de produção.

 

ELAA: O assentamento contestado há 20 anos fez a ocupação, foi criminalizado por isso. E hoje é um assentamento consolidado e que produz de maneira agroecológica. Como você vê isso?

Bela Gil: Eu acho que é muito simbólico e ao mesmo tempo é muito importante. Porque a gente fala e houve falar muito de agroecologia como algo que é utópico. Com a produção de alimentos orgânico não dá pra alimentar o mundo com orgânicos. Isso é um ideologia, uma utopia.

Eu acredito que agroecologia dentro de um assentamento de reforma agrária mostra exatamente o contrário. Que é possível, não só é possível, como é real.  Isso é praticado no dia a dia. A gente consegue enxerga isso. Não é que a gente pensa em agroecologia, aqui eles estão fazendo agroecologia. Sabe, então é uma forma de a gente mostrar para o mundo que sim, é possível alimentar o mundo com uma comida boa, limpa e justa, mas para isso a gente precisa querer.

A gente precisa fazer com que o governo tome um posição. Fazer com que políticas públicas consigam regulamentar melhor todo esse sistema de produção, que a gente vê que hoje em dia, o sistema de produção do agronegócio, por exemplo, é mito falho. A gente tem um produção excedente de alimento, mas que ainda temos mais de 8 milhões de pessoas passando fome no mundo. O problema não necessariamente é a quantidade de comida produzida, mas a concentração de terra, concentração de riqueza, de poder, na mão de poucas pessoas. Eu acho que é isso. A agroecologia dentro de um assentamento mostra mais que uma resistência e sim a resiliência do movimento de poder se renovar, se regenerar, se transformar ao mesmo tempo mostrar que a gente não estão só pensando, mas a gente tá fazendo.

 

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