Alemanha proibirá o uso do glifosato, principal agrotóxico da Monsanto

Por: Marcos Hermanson Brasil de Fato

Foto: Sebastien Salom Gomis

O governo alemão anunciou nesta quarta-feira (4) que pretende banir o uso do glifosato a partir do dia 31 de dezembro de 2023. O objetivo da decisão é frear o declínio da população de insetos no país, causada pelo uso massivo de agrotóxicos, e garantir a continuidade da polinização das colheitas.

No ano de 2022 expira a autorização de uso do glifosato concedida pela União Européia. A Alemanha pretende, até lá, reduzir gradativamente o uso do agrotóxico – que é utilizado para exterminar ervas daninhas.

Caso o programa de proteção aos insetos seja aprovado no parlamento alemão, a aplicação do “mata-mato” – como o glifosato é conhecido no Brasil – será proibida a partir do ano que vem em parques públicos, jardins privados e em plantações antes da colheita.

Em julho deste ano, a Áustria foi o primeiro país do mundo a proibir o uso do glifosato em seu território.

Impacto mundial 

De acordo com o engenheiro Alan Tygel, da coordenação da Campanha Permanente contra Agrotóxicos e Pela Vida, a Alemanha é atualmente um ator central no mercado de agrotóxicos, já que duas das maiores fábricas de veneno do mundo – Bayer/Monsanto e Basf – são de lá. O país também é um dos maiores exportadores de agrotóxicos do mundo.

Tygel explica que restrições como as previstas na Alemanha podem ter grande efeito no Brasil e no resto do mundo, especialmente se o projeto já aprovado na França, de vedar a exportação de agrotóxicos proibidos na Europa, for adotado também pelos alemães.

“A exportação de agrotóxicos proibidos nos próprios países de origem é um escândalo, que ficará ainda mais explícito com a proibição do glifosato na Alemanha, e possivelmente em toda a Europa”, assinala.

Câncer e extermínio da fauna

Em 2015, a Agência Internacional para Pesquisa sobre Câncer (Iarc) concluiu que o glifosato é genotóxico (causa alterações no DNA), cancerígeno para animais e “provavelmente cancerígeno para humanos”.

À divulgação da pesquisa seguiram-se ataques e intimidações da Monsanto – principal fabricante do herbicida – ao orgão e aos cientistas responsáveis pela pesquisa, como mostrou o periódico francês Le Monde.

No início de 2019, a gigante Bayer, dona da Monsanto, admitiu que a companhia mantinha listas de jornalistas e políticos europeus que poderiam ser “influenciados” na batalha travada por ela contra o banimento dos agrotóxicos.

Em agosto de 2018, a Monsanto foi condenada por um júri estadunidense a pagar US$ 289 milhões (R$ 1,18 bi) em indenizações ao jardineiro Dewayne Johnson, portador de linfoma. Decisão semelhante, em março deste ano, condenou a companhia a pagar US$ 80 milhões (R$ 328,8) ao agricultor Edwin Hardeman, que esteve exposto ao glifosato por 26 anos em sua fazenda na California.

No ano passado, uma pesquisa da Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) revelou o efeito nocivo do glifosato sobre as abelhas. Os pesquisadores responsáveis demonstraram que o agrotóxico prejudica a capacidade das abelhas em combater infecções e leva ao aumento da mortandade destes insetos, o que por sua vez prejudica a polinização da flora.

Brasil

O glifosato foi introduzido no mercado pela Monsanto em 1974 e é hoje o agrotóxico mais utilizado no Brasil e no mundo. Como a patente do químico expirou no ano 2000, produtos com base no composto são produzidos por inúmeras companhias, entre elas a Basf e a Dow Chemical.

Anualmente, 800 mil toneladas de glifosato são aplicadas em plantações do mundo todo, 173 mil delas apenas no Brasil. Segundo a Anvisa, 110 agrotóxicos com a substância são comercializados por 29 empresas diferentes em território nacional.

Em fevereiro deste ano, a Agência concluiu que a substância não é cancerígena, acompanhando os orgãos reguladores dos Estados Unidos e da União Europeia, que tiveram posição semelhante.

A quantidade tolerada no país, entretanto, excede o permitido nessas regiões. Na soja, o resíduo de glifosato permitido é 200 vezes maior do que na União Europeia. Na água potável, essa proporção dispara a 5 mil para um. Apenas nos primeiros oito meses de 2019, o governo brasileiro liberou o uso de 290 novos agrotóxicos.

 

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