Agroecologia e a perspectiva de emancipação humana

O segundo dia do Seminário que celebra os 11 anos da Escola Latino Americana de Agroecologia (ELAA) inicia com a boniteza da mística realizada pelas crianças da Escola Municipal do Campo do Contestado, em referência e reverência à “Mãe Terra”.

Na sequência, José Maria Tardin, que contribui com a ELAA desde que ela surgiu como ideia e prática formativa em agroecologia, trouxe para debate os aspectos da “Formação em Agroecologia e Perspectivas dos Movimentos Sociais”, partindo da contextualização do espaço ou “El Espacio” onde os pés pisam e fundamentam o pensamento. El Espacio é o nome dado à plenária que acolhe esse momento formativo e celebrativo, e faz referência ao conceito impresso pelo movimento estudantil da Argentina no ano de 1920, quando afirma:“…la universidad del mañana será sin puertas ni paredes, abierta como el espacio: grande.”

Foto por Laís Rossatto

Feitas essas considerações, Tardin esclarece que sua fala seguinte está embasada na forma de ver o mundo a partir do Materialismo Histórico Dialético inspirado nas elaborações de Karl Marx e Friedrich Engels. Daí em diante traça um paralelo da História da Natureza e da Sociedade Humana identificando os elementos que fundamentam a construção da agroecologia nas suas conotações atuais.

Em síntese faz um “retorno” ao que se conhece como “berço de surgimento da humanidade” no continente africano, abordando os aspectos da relação que se estabelece entre ser humano e natureza por meio da Cultura que, segundo afirmou, se traduz no ato de “tomar bens da natureza e colocar intencionalidades humanas”, transformando-os para satisfação das necessidades de existência.

Da evolução dessas relações surgem as “Agri-culturas” alterando profundamente a sociedade, pelo fato de que a partir daí foi possível gerar um excedente de produção e armazenamento de alimentos, criando com isso novas relações sociais e com a natureza, diferentes daquelas estruturadas no chamado “comunismo primitivo”, onde não havia acúmulo de bens ou divisão de classes e que era orientado por uma lógica “matricial”, com centralidade no feminino.

Os modos de produção e organização da sociedade que seguiram tiveram momentos de predominância do Escravismo, Feudalismo, Proto-impérios…, até chegar ao Capitalismo em que vivemos atualmente.

À medida que foram acontecendo essas transformações, indo desde a “administração do fogo” e passando pelo “surgimento da agricultura” e “domesticação dos animais”, o advento das “revoluções verdes” até chegar o que se denomina atualmente de agronegócio, houve um profundo acirramento do que Tardin apresenta como “ruptura metabólica”, que pode ser traduzido pelo distanciamento entre ser humano e natureza. Nesse sentido, para a “sociedade burguesa a natureza é fonte de recurso e o ser humano é força de trabalho”.

No entanto, considerando que todo esse processo histórico é dinâmico e permeado pela contradição, as elaborações teóricas e práticas sintetizadas nas agriculturas “biodinâmica, orgânica, natural, biológica, alternativa, permacultura, no pastoreio voisin, no estudo da biocenose do solo”, entre outras, representam o enfrentamento à lógica de mercantilização dos bens comuns da natureza.

Também fornecem uma gama de conhecimentos que somados aos de outras áreas do conhecimento e com os saberes ancestrais afirmam e reafirmam a dimensão ecológica da vida como fundamental para um projeto de sociedade com emancipação humana.

A agroecologia implica a reconstrução do “metabolismo socioecológico” com centralidade nos processos ecológicos locais, e Tardin é categórico ao afirmar que a tarefa das/os agroecólogas/os militantes é “incluir a dimensão ecológica da vida na revolução social”.

Essa é a essência da formação na ELAA: preparar técnicas/os-militantes-pedagogas/os em agroecologia que fortaleçam a luta pela liberdade da terra e dos povos, com restauração da relação de mutualismo entre ser humano e natureza.

Texto por Karol Dias

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