Manifesto por uma comunicação popular agroecológica

A ELAA – Escola Latino Americana de Agroecologia surgiu em 2005 com o propósito de contribuir no resgate, no fortalecimento e na construção de agriCULTURAS saudáveis e produtivas, socialmente justas e integradas à vida. E desde então construímos no dia a dia a agroecologia. Para isso assumimos o desafio de amplificar essa matriz por toda a América Latina e Caribe por meio de uma formação diferenciada, que tem como base o diálogo entre os saberes populares e científicos.

Nesse momento em que nos fortalecemos na luta pela reforma agrária, pela agricultura agroecológica e pela educação popular, resolvemos encarar mais um desafio: o da comunicação. O fazer dialógico precisa ser experienciado no campo da comunicação, que contraditoriamente costuma ser negligenciada nas lutas sociais e abordada de maneira instrumentalista ou inconsciente, reproduzindo uma prática midiática isolada em si mesma, calcada mais na propaganda que no diálogo, mais na especialização que no fazer comum.

Entendemos que todas e todos temos o direito de comunicar nossos saberes, de nos reconhecermos em nossas origens e de incidir na evolução das culturas e da vida como um todo. Está assegurado na Declaração Universal dos Direitos Humanos o direito individual à liberdade de expressão, que é historicamente negado à classe trabalhadora. Queremos ir além e assegurar o direito coletivo de se expressar, de dialogar em sociedade e intervir na realidade.

Assim como não podemos fazer agroecologia sem fazer reforma agrária, não podemos fazer comunicação popular sem a reforma da mídia – ou nos restringiremos ao reformismo que não leva em consideração questões estruturais. Existe um monopólio inconstitucional dos meios de comunicação no Brasil, um latifúndio midiático, que criminaliza as lutas sociais e serve aos interesses daqueles que se beneficiam da concentração de poder político e econômico.

Entendemos a comunicação como ação política e não apenas canal de circulação de informações. Trata-se de um processo de interpretação da realidade a ser desenvolvido colaborativamente, em contraponto à lógica competitiva da mídia comercial. As tecnologias da informação devem servir para a difusão de pontos de vista construídos em diversos âmbitos, problematizando a sociedade à partir da experiência dos diversos setores que a compõem. Defendemos que a comunicação deve estar a serviço de todas e todos, para a construção de uma sociedade mais justa e democrática.

Os materiais produzidos nesse espaço deverão respeitar valores éticos e os direitos humanos, opondo-se à discriminação de raça, credo e gênero. Tendo em vista o compartilhamento e a produção de conhecimento, indica-se a utilização de licenças que apoiam a flexibilização dos direitos autorais, as políticas de copyleft e a livre reprodução de conteúdo. Destaca-se, ainda, que outros tipos de licenciamento devem ser respeitados. Havendo reprodução de materiais de terceiros (em qualquer formato), a fonte precisa ser citada. Defendemos preferencialmente o uso de softwares livres e tecnologias abertas, por sua importância crucial na perspectiva de uma descolonização e empoderamento tecnológico.

O objetivo é, além da prática de um modelo de comunicação emancipatório, compartilhar conteúdos que contribuam com as lutas sociais, com a disseminação da agroecologia e com a construção de um outro mundo possível mais justo, em que todos os seres humanos possam viver bem, integrados às suas comunidades e à natureza. Queremos desenvolver nossos olhares e dialogar, inovar nos formatos, nos emancipando dos padrões que determinam o que é ou não notícia e de como devemos comunicá-las.

Na comunicação compartilhada, além do conteúdo, importa a forma como ela é construída e o processo conjunto de reafirmação da diversidade – mais do “quê” comunicar, trata-se de “como” e “para quê” comunicar. É preciso reconhecer a comunicação popular como processo inerente aos movimentos sociais, como metodologia do fazer comum – e, em contraposição à monocultura da mídia de massa, criar nossa própria comunicação, agroecológica.

A partir do seminário de 11 anos da ELAA, realizado de 27 a 29 de outubro de 2016, experienciamos essa outra prática de comunicação – a exemplo do Fórum Social Mundial e tantas outras iniciativas espalhadas pela América Latina e pelo mundo – como um grande laboratório para aprendermos a exercer o direito à comunicação coletivamente. Essa experiência de gestão colaborativa terá continuidade na comunicação da ELAA, envolvendo trabalhadoras(es), educandas(os), colaboradoras(es) e a comunidade.

Um comentário sobre "Manifesto por uma comunicação popular agroecológica"

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*